Ontem eu tava na praia e vi um tio desses que vendem Biscoito Globo. Uma vez, falando da culinária praiana num outro blog, comentei acerca destes biscoitos, vou colar pra vocês:
Uma das coisas que eu achei hilário aqui é, vamos dizer assim, a culinária praiana. Tem um troço aqui chamado Biscoito Globo. Fiquei intrigadíssima, afinal de 10 ambulantes de beira de praia, 9 vendem biscoito Globo. Que coisa maravilhosa, exótica, tropical
deve vir embrulhada naquele pacotinho de papel branco, pensava sempre. Descorbri que o lance é nada mais, nada menos, do que biscoito de polvilho. Achei amusing
a idéia de comer biscoito de polvilho na praia! Porquê biscoito de polvilho?? Milho verde combina com praia. Sanduiche natural combina com praia. Salada de frutas combina com praia. Até o nojento, gosmento, intragável e absolutamente roxo açaí
combina com praia. Agora, fala sério… Biscoito de Polvilho? E acontece que o tal do biscoito aqui é TÃO tradicional que tem até canga com o mascote dos biscoitos globo. Adorei. Acho que vou querer uma.
E bem, daí outro dia, recebi um e-mail, falando sobre a história dos tais biscoitos, veja que interessante:
São 4h50 da madrugada na escura Rua do Senado, na Lapa. Até os mais renitentes boêmios já entregaram os pontos. Não se vê viva alma, a não ser em frente ao sobrado número 273, onde cerca de 50 pessoas aguardam a abertura da fábrica do tradicional biscoito de polvilho Globo. Daqui a algumas horas, o sol estará brilhando na orla, mas a praia do carioca nasce ali, na escura Rua do Senado.
O primeiro da fila chegou às 2h. Fausto Ferreira da Silva, 80 anos, compra biscoitos para vender na Praia do Leblon há oito anos, desde que deixou o emprego de cozinheiro num restaurante do Centro. – O produto é bom! – empolga-se. – Esse biscoito é dinheiro em caixa. Criança de um ano já aponta o dedinho quando a gente passa – diz o vendedor, que paga R$ 25 por um saco de 50 unidades.
Pontualmente às 5h, um senhor franzino, de fala mansa mas articulada e segura, chega para abrir a fábrica. Milton Ponce segue essa rotina desde 1962, quando decidiu ampliar a produção da padaria Globo, em Botafogo. Paulista, ele chegara ao Rio em 1954, trazendo de uma panificação antiga do bairro do Ipiranga a fórmula que junta polvilho, ovos, leite, açúcar, sal, gordura hidrogenada e água. - Muita gente pergunta por que não aumento a produção. Quase todos os dias, recebo propostas de franquia, mas isso aqui é como um bolo que você faz na sua casa. Segundo ele, sua maior satisfação é fornecer um meio de vida a milhares de pessoas que vendem o biscoito nas praias do Rio e pelas ruas da cidade. - Muita gente aposentada ou desempregada vem aqui comprar o biscoito e sobrevive da venda. Milton diz que o segredo do sucesso são seus funcionários – 18 no turno da manhã e quatro à tarde – que chegam a produzir 15 mil saquinhos com dez rosquinhas cada durante o verão.
– Tenho funcionários comigo a 42, 38, 35 anos. Aquele está aqui desde os 11 – conta, enquanto aponta para o forneiro Ednaldo Valdevino do Nascimento, 36. Levado à fábrica por dois tios, ele acorda todos os dias às 3h20 para trabalhar.
– A carcaça já calejou com esse horário.
Mas quem mete mesmo a mão na massa é Jailton da Silva Cardoso, que exercita os músculos e a sensibilidade dos dedos para achar o ponto certo. Como não pode usar luvas, sua maior preocupação é com a higiene. – Se colocar numa batedeira a massa queima porque não leva fermento – explica. – Já tentei usar luvas, mas elas impedem que eu saiba o ponto exato.
Milton brinca com a fidelidade dos funcionários.
– Tem uma senhora aqui que, se eu demitir, dá um jeito de entrar pelo telhado. A maioria das empresas erra quando troca os empregados que ganham mais. Eu valorizo essa equipe.
Seu calcanhar de aquiles é o empacotamento nos saquinhos de papel vendidos nas praias – os únicos que resistem à ação do sol.
– Já procuramos na Itália e na Alemanha, mas não existem máquinas para esse trabalho.
Apesar de não ser carioca, Milton já incorporou o espírito gozador e não liga para os apelidos de biscoito de vento ou “me engana que eu gosto”:
– Devemos muito do nosso sucesso à essa irreverência.
Mas o mais legal de tudo é que eu tava pensando ontem, olhando para eles até com um pouco de pena por ficarem o dia vagando no sol, caminhando quilômetros e me perguntando “quanto será que um cara desses ganha“? Veja só, cada pacote tem o custo de R$ 0,25, e o sacão tem cinquenta unidades e eles sempre compram um sacão de doce e de um salgado (100 unidades, total). Até aí dá um custo de R$25,00. No final de semana, óbvio que o preço de tudo inflaciona na beira da praia, então você consegue achar Biscoito Globo de R$2,00 a R$2,50. Mas vamos chutar pra baixo e vamos botar aí que eles consigam vender as 100 unidades por dois reais. Dá um lucro de R$175,00 POR DIA! Se o cara resolve trabalhar só dois dias por semana, sábado e domingo, ainda assim vai ganhar R$1.4oo,00 POR MÊS! SEM DESCONTO! E mais legal ainda: vendeu as cem unidades, volta pra casa! Não vou nem fazer a comparação com o estagiário pra não ser humilhante. E tem muita gente por aí formada que não ganha isso. Mas e aí? Já tá pensando em mudar de profissão?
a idéia de comer biscoito de polvilho na praia







